“Não se faz política sem vítimas”
Tancredo Neves
07/fev/2010
ás 23:55
Publicado por Robson Pires na categoria

Maria Boa: a primeira grande dama de Natal

Natal, década de 40 – A cidade fervilhava de militares americanos e brasileiros. Aviões, hidroaviões, Catalinas e Jeeps patrulhavam a vida dos natalenses.

Instalava-se na cidade a paraibana de Campina Grande, Maria de Oliveira Barros (24/06/1920 – 22/07/1997). Começava neste ínterim a história da mais conhecida casa de tolerância do estado (do país ou do mundo?).

Entre as movimentações na Ribeira, nas pedidas de Cuba Libre no saguão do Grande Hotel, nas notícias pelas Bocas de Ferro, na Marmita, em Getúlio e em Roosevelt e na nova geração de meio americanos e meio brasileiros, lá estava Maria Barros enaltecendo-se na Cidade do Natal como a proprietária do melhor (ou maior) cabaré.

Tornou-se conhecida como Maria Boa. Mesmo com pouco estudo ela despertou o gosto por música, cinema e leitura. O seu “estabelecimento” era o refúgio aos homens da cidade, com residência fixa ou, simplesmente, por passagem por Natal e servia de referência geográfica na cidade.

Jovens, militares e figurões acolhiam-se envoltos as carnes mornas das meninas de Maria Boa. Muitas mães de família tiveram que amargar, em silêncio, a presença de Maria Boa no imaginário de seus maridos em uma época de evidente repressão sexual.

Vários fatos envolveram a personagem. Um episódio muito comentado foi a pintura realizada pelos militares em um avião B-25. Um dos mais famosos aviões da 2a Guerra Mundial, os B-25 eram identificadas com cores características de cada Base Aérea. Os anéis de velocidade das máquinas voadoras da Base Aérea de Salvador eram pintados com a cor verde. Os aviões de Recife, com a cor vermelha, e os de Fortaleza, com a cor azul. Para a Base de Natal foi convencionada a cor amarela. Os responsáveis pela manutenção dos aviões em Natal imaginaram também que deviam ser pintados no nariz do avião, ao lado esquerdo da fuselagem junto ao número de matricula, desenhos artísticos de mulheres em trajes de praia. Autorizada pelo Parque de Aeronáutica de São Paulo, a idéia foi colocada em prática. Pouco tempo depois, os B-25 de Natal surgiram na pista com caricaturas femininas e alguns até com nomes de mulheres. Alguns militares da Base escolheram o B-25 (5079), cujo desenho se aproximava mais da imagem de Maria Barros. Outras aeronaves também receberam nomes como “Amigo da Onça” e “Nega Maluca”.

Quem custou a acreditar neste fato foi a própria Maria. Até que alguns tenentes decidiram levá-la até à linha de estacionamento dos B-25 logo após o jantar para não despertar a atenção dos curiosos. Ela constatou o fato. As lágrimas verteram de seus olhos quando viu à sua frente, pintada ao lado do número 5079, a inscrição “Maria Boa”.

O mito “Maria Boa” rendeu trabalhos acadêmicos o de Maria de Fátima de Souza, intitulado: “A época áurea de Maria Boa (Natal-RN 1999)”. O trabalho aborda o “fenômeno da prostituição infanto/juvenil, suas conseqüências e causas no desenvolvimento físico e psicossocial de crianças e adolescentes (…). Com o aprofundamento dos estudos percebemos o importante papel dos bordéis na prostituição, bem como o fechamento dos mesmos (…). Chegamos então ao cabaré de Maria Boa, já fechado. Tivemos, assim, a oportunidade de conhecer um pouco da saga da Sra. Maria de Oliveira Barros, uma profissional do sexo, com grande importância na história da prostituição de adultos, ou ainda, tradicional; das histórias contadas a seu respeito chamou-nos atenção para sua representação social, seu “mito” e sua ligação com o imaginário masculino. Com isso, passamos a averiguar mais profundamente uma participação na sociedade da época e buscamos reconstruir parte de sua história enquanto meretriz, cafetina, e proprietária da mais famosa casa de prostituição que o RN já conheceu.”

O Professor Márcio de Lima Dantas publicou2002 o texto “Retratos de silêncio de Maria Boa”. “(…) Para além da atitude ética de proteger sua família, o que faz parecer um jogo com a hipocrisia da sociedade, penso que, na atitude de se manter reservada, se inscreve outro aspecto digno de ser ressaltado. Falo do mito que entorna a personagem Maria Boa, de certa maneira, criada e ritualizada por ela mesma, dimensão de fantasia para além do empírico vivenciado. (…) Astuciosamente se fez conhecer por “Maria”, o antropônimo mais comum no universo feminino, genérico e pouco dado a divagações semióticas. Ironicamente é o nome da mãe de Jesus… Quem não tinha conhecimento no Estado de uma proprietária de um requintado lupanar, e que se chamava Maria, a Boa. O mito, da constituição do éter, era aspirado por todos, preenchendo necessidades, ocupando lugares no espírito, imprimindo fantasias nos adolescentes, despertando em jovens mulheres às aventuras da carne, engendrando adultérios imaginários.

Por José Correia Torres Neto


6 Comentários

  1. 1V3N disse:

    Do Brasil, certamente não: O Café Photo foi maior.
    Do mundo, tbm não: O Moulin Rouge ainda existe!

  2. VANDERLEI disse:

    AINDA HOJE NAS NOSSAS REUNIÕES DE TURMA , O NOME DE MARIA BOA É RELEMBRADO COM MUITO CARINHO.
    COMO EU GOSTARIA DE TÊ-LA CONHECIDO.

  3. Ronaldo Bastos Reis disse:

    Aos poucos está se espalhando a sugestão do Aeroporto de São Gonçalo do Amarantes ser chamado de “Aeroporto Maria Boa”, numa justa homenagem a uma das mais conhecidas personagens da história do RN.
    .
    Figura conhecida até hoje pelas histórias folclóricas ou verdadeiras que envolveram sua vida, qualquer jovem, e especialmente os mais velhos, sabem quão popular e bem quista ela foi nas décadas de 40 e 50.
    .
    Diante de alguns dos nomes que estão sendo sugeridos para batizar o Aeroporto, Maria Boa certamente tem méritos mais do que suficientes para ser homenageada.
    .
    Vamos apoiar e divulgar!

  4. Minha mãe, estudou com a filha de MARIA BOA, no COLÉGIO SANTA ÁGUEDA, EM CEARÁ MIRIM, NO INTERNATO, SÓ QUE DEPOIS DE CASADA, MINHA MÃE FOI MORAR NO PARÁ, E PERDEU O CONTATO C/ELA, SE O SENHOR TIVER COMO ENCONTRA-LA, POR FAVOR, PERGUNTE SE ELA TEM INTERRESSE DE ENCONTRA-LA.
    O NOME DE MINHA MÃE É ISOLDA MARIA,ÉLA ERA UMA DAS INTERNAS QUE FUGIU, DO COLÉGIO.
    OBRIGADA< ABRAÇOS, ESPERO QUE O SENHOR POSSA- ME AJUDAR ALESSANDRA GOMES

  5. José Lindoval Ramires Costa disse:

    Estive lá na primeira vez que andei em Natal em 1986.Havia mulheres de vários tipos, gostei de algumas e fiquei com uma e foi muito legal a ponto de não ter esque-
    cido até hoje.Foi legal mesmo. Eu tinha 30 anos. Quando voltei a Natal, informaram ter fechado, mas mesmo assim fui até ao local apenas para recordar.

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Quarta, 29 de Outubro de 2014

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