Notas

Uma justa homenagem a Cláudio Santos

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“O SERTÃO SOMOS NÓS’

Honra-me demasiado receber este título de Cidadão Caicoense nesta noite, concedido à unanimidade dos vereadores desta cidade, formalizando um sentimento que existia, na minha concepção, pois já me considerava cidadão desta querida cidade de há muito tempo, dada a ligação que tenho cultivado com a Rainha do Seridó, Vila do Príncipe de antigamente.

Aqui estive sempre desde a terna idade, seja ainda menino estudando para o exame de admissão no externato de minha avó, professora Calpurnia Caldas de Amorim, ali pelo bairro do Acampamento, exame este a que me submeti no Colégio Diocesano Seridoense e no Instituto de Educação.

Os meus avós paternos moravam àquela época na av. Seridó, em frente ao Arco do Triunfo, e ali passei muitos meses daquela idade, brincando sob as sombras dos tamarineiros que ainda hoje resistem ao tempo que se esvai por entre a penumbra das lembranças da gostosa infância.

A minha avó, professora de várias gerações nesta cidade, empresta o seu nome ao colégio estadual localizado após a ponte do rio Barra Nova, ECAM, quando era Secretário de Educação do Estado o professor Arnaldo Arsênio de Azevedo, ex-aluno, caicoense da melhor cepa.

Aqui passei mais dois anos, no ginasial do GDS, aonde fiz inúmeros amigos, que ainda hoje são sobreviventes, no dizer popular, bem como tive o prazer de estudar com professores como o Padre Tércio, Laercio Segundo de Oliveira, Afra Goes, João Agripino, entre outros que a lembrança não alcança mais, conviver com pessoas da qualidade de Oberdan Damásio, Pituleira, Cornélio, Araken, Jandui Fernandes, Jaime Mariz, Neguinho de Manoel de Nenê, entre tantos.

Sinto-se desde antes caicoense, embora nascido na vizinha Jardim do Seridó. Aqui meu tio exerceu o sacerdócio, como vigário de Sant’Ana, Pe.

Onio Caldas de Amorim, a quem se deve, entre poucos, a iniciativa da Feirinha de Sant’ana. Todos os meus irmãos aqui estudaram. Depois, já adulto, tivemos atividades comerciais e empresariais, durante muitos anos. Frequentei sempre a festa de sant’ana, o baile dos Coroas, o clube do Itans, a praça da liberdade, o bar do Ferreirinha. Comprei muita turina de sol no açougue e exaltei sempre a culinária local, pra mim, sem exagero, umas das melhores do mundo. O caldo de costela, a cabeça de galo, uma costela de carneiro “sal preso’, os filhós, a maxixada com nata, os queijos de manteiga e de coalho, o tucunaré do Itans…

Tenho esses valores impregnados que percorrem as minhas veias e alimentam as raízes de minha alma. Ai do homem que não tem raízes; pior aquele que não as cultiva. Os homens de boa vontade têm sempre raízes profundas e agregadoras de amizades, feitas no simples prazer em tê-las, seja no convívio diário, seja à distância, na saudade.

Mas como conceituar Caicó? E o Seridó, seridós, nas palavras de outro cidadão jardincaicoense, Moacy Cirne?

Pela ordem, aproveito as palavras de Oswaldo Lamartine de Faria, em “Alpendres do Acauã”, quando ele dizia:

“Cada vivente tem o seu sertão. Para uns são as terras do horizonte e para outros, o quintal perdido da infância… para mim o sertão é a caatinga. É o meu bem-querer, e quando descamba ali na serra do Doutor, Riacho do Maxixe, e vai esbarrar nas barrancas do Piranhas”.

Portando, para nós outros, o sertão é a seca braba e inclemente, o gado morrendo de fome; sequer xiquexique há e dá para salvar o rebanho, pois precisa de um cheirinho de torta de algodão – como dizia meu pai -, mas são também os rios correndo de barreira a barreira, é o açude sangrando e a curimatã pulando contra a correnteza para desovar, é o olhar vazio do agricultor e pecuarista perscrutando o horizonte em busca das “torres” de nuvens que muitas vezes não vêm; são os sinais de inverno que se procura desde os últimos meses do ano; é a batata-rainha arrancada das vazantes do rio Seridó, o capim panasco que dá o sabor incomparável da nossa carne de sol, chã de fora dura e saborosa. É a

cigarra encantada cantando em silvo solto sob o causticante sol do meio dia.

Mas não me arrisco mais de dizer e repito as palavras de outro também apaixonado por Caicó, Moacy Cirne, quando expressava:

“O sertão não é para qualquer vivente. Com pedra e fogo, natureza febril que se faz aurora grávida de mistérios e silêncios, o sertão, faca e bala, existe dentro do sertanejo através dos alfenins, alpendres e lonjuras. O sertão somos nós: seus bichos, suas oiticicas, seus rios, seus açudes, suas mulheres, seus homens. E suas promessas de relâmpagos e trovoadas, e suas promessas de horizontes e arco-iris…”

“O sertão somos nós: suas veredas, suas travessias, seus descampados, seus riachos, seus rios magros, seus dias, suas dores. Enfim, o sertão somos nós: o gado que nos contempla com seus olhar sonolento, o galo que nos desafia com sua altivez exemplar. O xiquexique que se faz vida, o algodão que se fazia norte. O vento da tarde que se faz viração, o frio da madrugada que se faz cruviana. Na seca, a manhã cinzenta é um prolongamento de nossas tristezas mais profundas”.

Talvez a leitura em rigor da simples etimologia destas palavras não seja suficiente para a exata e profunda compreensão incipiente do que seja o Seridó, Caicó em particular, pois que apenas o consciente não seja capaz de apreender, absorver… não consiga entender. É um estado de espírito, é a genética, é a vivência e a gostosa cidadania de ser Seridó, seridós…

Despeço-me, por enquanto, dos conterrâneos e demais presentes a esta bela cerimônia, dizendo que o homem do Seridó – se me permitem uma digressão comparativa com a flora local – é uma vara de marmeleiro que se curva mas não quebra, é o miolo da aroeira que nem prego fura, é o pau-ferro e o tronco da craibreira, é a jurema preta que fica nua na seca e se reveste de verde na primeira chuva, é o orgulho sem vaidade, é a palavra empenhada, é o prazer da amizade, é o sorriso e a felicidade quando vem a primeira chuva, quando o rio desce em cheia, é quando rezamos algo emocionados, olhos marejados pedindo a Sant’Ana que nos traga saúde e à nossa família e um bom inverno para o sertão!

O seridoense é o piau, a traíra e a curimatã que hibernam na lama do açude e pulam depois de ano ou mais, em milagre, sacudindo as escamas com a água nova que chega e os ressuscitam como por encanto da natureza. Saem singrando a água agora vida.

Registro uma última palavra em memória de um amigo especial de todos os que aqui estão, por seus admiradores, familiares e conhecidos: ao saudoso caicoense que a violência mais brutal extirpou do nosso salutar e sadio convívio: Severiano Firmino de Araújo, SEVI, figura grande, irradiante de alegria, homem de bem, honrado, de palavra, pai e filho exemplar. Amigo largo, generoso. Aquele que chegava e trazia consigo uma aura de felicidade que nos envolvia e abraçando ternamente. Olhos azuis brilhantes e sorriso franco, largo, viço de pureza. Meu abraço ao amigo e conterrâneo SEVI. Que Deus o tenha em bom lugar.

(discurso proferido pelo Des. CLAUDIO SANTOS no dia 21/07/2017, por ocasião da solenidade de entrega do título de Cidadão Caicoense)

4 comentários em "Uma justa homenagem a Cláudio Santos"

    Dary Dantas Filho
    24/07/2017 às 08:24

    Grande Cláudio Santos! Um discurso perfeito e apaixonado.

    809450
    daturmadolula
    24/07/2017 às 09:14

    Se depender de nós ele não ganha nem que a vaca tussa! Se aproveita da situação para prometer o que não pode. Só faltar dizer que o Xerife vai ser o secretário de segurança. Homi, vá se rear pra lá!!!

    809464
    Robson Pires (site)
    24/07/2017 às 09:28

    E vou mesmo! E acabou! kkkk

    809470
    Suébster Neri (site)
    24/07/2017 às 16:14

    Conheço bem e comungo das mesmas palavras e mais que isso, do mesmo sentimento de Dr. Cláudio Santos. Como jardinense de nascimento e caicoense adotado sei bem o que quis mostrar, seu amor por este chão. Tive a honra de conhecer a aprender com seu pai, Manoel Paulino, referência no bom trato. Honra nossa tê-lo como conterrâneo em mais um momento.

    809581

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